O retrato de um bancário e financiário em tempos de crise de coronavírus

Joinville – O país inicia, hoje, o mês que carrega o maior desafio contemporâneo da saúde pública brasileira. É em abril que o Ministério da Saúde estima colocar em prática parte das preparações de enfrentamento ao novo coronavírus. Em um cenário de transmissão sustentada cada vez mais consolidado, os vazios assistenciais e a impossibilidade de isolamentos sociais em comunidades mais vulneráveis têm sido ponto preocupante e motivo de discussão do Gabinete de Crise contra a Covid-19.

Caos generalizado

Vamos à um exemplo: Funcionária do Banco Alvorada S/A, Jane Doe*, de 26 anos, função de caixa, precisa sair de casa, no bairro Floresta, e pegar transporte público todos os dias para ir trabalhar. Sem transporte, ela está pagando R$ 20,00 de Uber por dia, quando seu vale-transporte reembolsado pelo banco é de R$ 3,60 aproximadamente. Com um filho fora da escola, viu-se obrigada a fazer mais uma despesa para pagar alguém para cuidar da criança, já que ela e o marido não podem parar.

Jane faz de tudo para manter o vírus da porta de casa para fora. Por isso gastou alto com produtos de limpeza e teve de comprar suas máscaras e luvas. No seu trabalho, ela manuseia dinheiro o dia todo e atende diversas pessoas. As condições de higiene e segurança em sua agência também estão abaladas, pois os terceirizados que cuidam dos serviços de asseio tem dificuldades iguais ou piores que as suas.

Ela acredita que, a partir do momento em que o vírus se espalhar, será difícil contê-lo. “As pessoas não estão cumprindo as medidas necessárias. Nosso sindicato fez tudo ao seu alcance e segue fazendo, mas como lutar contra o Governo e contra a Justiça?”. Todo este custo adicional repercurtiu em seu financiamento do apartamento e em boletos que não poderão ser pagos.

Este é o retrato do bancário e financiário hoje na base do Sindicato dos Bancários de Joinville. O banco Alvorada não existe aqui na cidade, é apenas um exemplo no texto, mas poderia muito bem ser qualquer uma das dez grandes instituições financeiras atualmente instaladas na região. “O empregador é responsável pelo pagamento do transporte ao empregado, bem como pelos instrumentos de EPI, como luvas e máscaras, além do álcool gel, além da higienização no ambiente de labor. As empregadas com filhos fora da escola devem ter prioridade no home-office bem como nos remanejamentos”, alerta Valdemar Luz, presidente do Sindicato.

Explosão do Covid-19

A explosão de casos da Covid-19, bem como sua consolidação em regiões conectadas aos grandes centros, é o cenário estimado para as próximas semanas. “Parte desse processo já estava dentro das expectativas esperadas. A transmissão está escalonando, crescendo dentro da cidade”, confirmou o secretário de vigilância em Saúde do ministério, Wanderson de Oliveira.

A preocupação é que, no Brasil, o epicentro da disseminação do coronavírus deve coincidir com o de outras doenças sazonais, como a dengue e a influenza. “As temperaturas começam a cair e as pessoas ficam mais aglomeradas, então, o cuidado adicional é fundamental. Se nós não fizermos todos os esforços, vamos ver situações, principalmente dessas comunidades, de circulação mais intensa”, explicou.

Sinais

O aumento da procura por leitos já mostra os primeiros sinais da consolidação desse panorama. Segundo levantamento feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o número de pacientes hospitalizados com síndrome respiratória aguda grave (SRAG), no Brasil, dobrou nos três primeiros meses de 2020, quando comparado ao mesmo período do ano passado. A explosão de casos, concentrada nas últimas três semanas, coincide com a chegada da Covid-19 em território nacional.

“Embora já viéssemos observando um crescimento ao longo do tempo, essa mudança muito grande nas duas últimas semanas é um forte indício de que a alta está, sim, associada ao novo coronavírus”, confirmou o pesquisador Marcelo da Costa Gomes, coordenador do InfoGripe, sistema que monitora as notificações da SRAG. Aproximadamente 10,3 mil hospitalizações por problemas respiratórios foram registradas nas últimas semanas em comparação a 3,1 mil, no ano anterior.

Para a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade, o contexto mostra que as preocupações com o fator idade devem se somar aos cuidados com os grupos mais vulneráveis socialmente. “Nós temos uma alta densidade populacional em condições habitacionais de muitas vulnerabilidades, como é o caso de muitas das nossas periferias e favelas em todos os centros urbanos do Brasil. Além disso, temos uma mobilidade urbana difícil, transportes lotados, uma série de questões que vão interferir no curso da epidemia”, apontou.

Nísia acredita que esses fatores têm que ser observados com mais atenção. “Pesquisas e políticas públicas terão que olhar para essa realidade tão complexa que se resume numa palavra: desigualdade. Precisamos olhar para esse fator para pensar em estratégias de solidariedade social”.

Prova de fogo

O secretário executivo, João Gabbardo, reconhece o gargalo: “A nossa grande preocupação são essas comunidades, pelo problema de acesso a saneamento, água potável e pela dificuldade de evitar aglomerações. Eles vivem e convivem em um ambiente de aglomeração, com grande chance de contaminação”.

Como estratégia para conseguir suprir a demanda das regiões mais vulneráveis, Gabbardo citou alternativas como instalação de hospitais de campanha e utilização de hotéis, estádios e navios como espaço adaptado para atender a essas pessoas, “principalmente, separar, em um ambiente com mais proteção, aquelas que forem de maior risco, até para evitar esses casos mais graves nas pessoas mais vulneráveis. Isso está sendo feito, já, no Rio de Janeiro, com algumas iniciativas”, informou.

O SUS terá a capacidade testada nas próximas semanas, prevê Gabbardo. “Vamos começar a ter casos de mais pessoas utilizando o Sistema Único de Saúde (SUS), o que vai forçar a resposta do nosso serviço. Para isso, nós ampliamos o atendimento da rede básica, contratamos mais médicos e ampliamos os horários de atendimento nas unidades saúde. Estamos implementando e antecipando todo o nosso cronograma de vacinas contra a influenza”, conclui.

“Este mês de abril vai ser visceral na luta contra a pandemia. Estas medidas pelas quais lutamos não serão para sempre. Quanto mais cedo e com mais intensidade forem corretamente seguidas, mais rapidamente voltaremos à vida normal. Somos absolutamente contra a abertura das agências bancárias do modo como foi decretado. Nos resta a fé, a sorte, os cuidados e a fiscalização firme de que, pelo menos estas mínimas requisições legais sejam devidamente cumpridas. Por isso, nos procure”, conclui Valdemar.

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