De chantagens a Silvio Santos: Na guerra pela Previdência, você é a vítima

O Palácio do Planalto decidiu pedir ajuda ao seu ”chefe” para tentar aprovar a Reforma da Previdência. De acordo com a agência Reuters, o governo Michel Temer repassou uma lista com quase 90 deputados indecisos para representantes do mercado e grandes empresários darem uma mãozinha no processo de ”convencimento”.

Como não estamos mais na ditadura civil-militar, imagino que nenhuma grande empresa, seja brasileira ou multinacional, vá ajudar no desaparecimento de políticos considerados inconvenientes. Além do mais, o sumiço de gente que desagrada às elites política e econômica é, hoje, feito pelas mãos de policiais corruptos e milicianos e ocorre, principalmente, contra gente pobre das periferias ou do interior. Há um outro jornalista morto no meio do caminho também, mas nada com o que os nobres deputados precisem se preocupar, portanto.

E considerando que empresas não poderão mais investir em candidatos nas eleições de outubro e que as doações de pessoas físicas contarão com um limite baixo, quais serão então os ”argumentos” utilizados pelo poder econômico para garantir o voto dos parlamentares?

Se tentarem apelar para o ”bem estar da população”, os próprios deputados vão rir. Afinal de contas, por mais que a proposta tenha desidratado e não seja mais a coisa feia que soltava gosma verde e aterrorizava o país no ano passado, ainda assim não ganharia um concurso de popularidade. Parte da sociedade, pelo que parece, gostaria que a questão fosse melhor discutida nas eleições presidenciais e um projeto de reforma fosse apresentado por um governo que tenha sido eleito para tanto.

Ah, isso parece meio fora de moda? É verdade. Mas, sei lá, eu curto uma democracia.

Podem também optar por dizer que os deputados vão, com isso, ajudar na estabilização do país e na geração de empregos. O parlamentar que for esperto perguntará de volta se o empresário garantirá que, em contrapartida, vai criar boas vagas com carteira assinada a tempo do efeito ser sentido pela população de sua região eleitoral até a eleição de outubro.

Caso contrário, sem essa mãozinha, vai ficar difícil explicar aos eleitores que o sujeito votou pela PEC do Teto dos Gastos, pela Lei da Terceirização Ampla, pela Reforma Trabalhista e, ainda por cima, pela Reforma da Previdência. Para esse Grand Slam da Tragédia Social, a população não dá troféus.

Isso seria o equivalente a um deputado ter recebido do povo uma vaca para ir vender na cidade e quando voltou, quatro anos depois, trouxe não o dinheiro, mas um punhado de feijões. E o pior: que não são mágicos. E, na sequência, pedir para o povo ter fé que aquele punhado de feijões, que ficaram no lugar da vaca que dava leite e queijo, vai em algum momento, talvez, produzir o suficiente. E que, para tanto, eles precisam manda-lo para a cidade novamente a fim de conseguir adubo.

Há, claro, a possibilidade de empresários oferecerem alguma vantagem. Para além do Caixa 2, existe sempre aquela empresa de consultoria digital que pode ser contratada de forma silenciosa por um empresário-amigo para que, com seus perfis falsos, semeiem desinformação sobre o adversário político ou bombem o caráter do deputado.

Isso sem falar de algum bônus pessoal para o político. Tá cheio de gente que faz tomaladacá e nem é processado em Brasília. Basta fazer parte do grupo político certo.

Essa ajudinha empresarial é mais uma etapa de um esquema de guerra que foi montado para tentar aprovar a Reforma da Previdência após o Carnaval.

Já teve Sílvio Santos como garoto-propaganda, fazendo escada para um sorridente Michel Temer tentar convencer a população. Isso sem falar de conversas com Ratinho e Amaury Jr. O carisma dos apresentadores ajuda, mas – claro – não faz milagre diante do entrevistado.

Já teve milhões sendo torrados para veicular publicidade a fim de te convencer que a proposta é tão legal, mas tão legal, que você não deveria amaldiçoar o seu querido deputado federal, nas eleições deste ano, caso ele vote a favor da proposta.

Já teve sinalização de liberação de R$ 30 bilhões em emendas parlamentares para quem votar pela Previdência, de forma que a população fique tão feliz com um asfaltamento de rodovia ou uma nova escola, há tempos prometidos, que se esqueça que terá mais dificuldades para se aposentar no futuro.

Já teve ajuda do ”amigo musculoso que mora na rua de cima”. Ou seja, o rebaixamento da nota de crédito da dívida brasileira pela agência de avaliação de risco Standard & Poor’s sendo usado como argumento pelo governo federal que, diante dele, afirmou que isso era ”um alerta sobre as consequências econômicas e sociais que a não aprovação da [Reforma da] Previdência trará”.

E já teve muita, mas muita, chantagem como instrumento de negociação. Ministro condicionando liberação de recursos da Caixa a governadores que fizessem pressão sobre deputados federais em nome da reforma. Campanhas na TV com ameaças explícitas e desinformação. Declarações da cúpula de Temer de que as próximas gerações vão ranger os dentes. Aliados afirmando que o país mergulhará num inferno sombrio de dor.

A Presidência da República deveria convocar um grande debate nacional sobre o tema, buscando ouvir diferentes pontos de vista para desenhar uma Previdência que não mantenha distorções e nem beneficie apenas alguns grupos em detrimento ao restante da população. E proteja os mais vulneráveis e quem ganha menos. Ao final, que as propostas sejam discutidas e escolhidas nas eleições de outubro.

O problema é que governo federal e o Congresso Nacional já romperam todas as ligações possíveis com a vontade da maioria de seus eleitores. Representam a si mesmos (a maior bancada é dos deputados-empresários), seus patrocinadores e investidores internacionais. Além das forças políticas que prometeram salvá-los da guilhotina das punições por corrupção.

Resta saber se o ”convencimento” do mercado e de grandes empresários será tão vantajoso que os deputados não se importarão com o dia seguinte às eleições. UOL

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